“Aquele profundo, aquele sublime, aquele habilidoso, aquele irrefutável – sim, aquele divino doutor” (Cotton Mather, ministro Congregacional, sobre William Ames[1] [2]
O Dr. William Ames nasceu em 14 de novembro, de 1576, em Ipswich, Suffolk, Inglaterra, região onde o puritanismo teve seus começos e a perseguição religiosa era menos feroz. Quando seus pais morreram, ele foi levado pelo tio Robert Snelling que se responsabilizou por sua educação. Diplomou-se em Cambridge, em 1607, e foi depois convidado a ser professor do Christ’s College. Quando estava para assumir, autoridades do Estado e a Igreja Anglicana interferiram por causa de suas convicções “não conformistas” (pessoas que não concordavam com as leis e hierarquia da Igreja Anglicana). O fato era que Ames se recusava a usar as vestes litúrgicas prescritas pelo clero, falava contra o sinal da cruz e outras cerimônias.
A perseguição se intensificou no reinado de Tiago I (James). Ames que havia traduzido um tratado de William Bradshaw no qual estavam estabelecidas, em termos claros, as convicções não conformistas, decidiu ir para a Holanda em busca de liberdade.
Chegou em 1610 e trabalhou em várias comunidades de ingleses refugiados. Conheceu John Robinson líder dos Separatistas congregacionais em Leiden, e tentou dissuadi-lo de seu separatismo radical.[3] Teve uma vida precária até ser nomeado para ensinar na Universidade de Franeker. Mesmo com as autoridades inglesas interferindo, ele conseguiu tomar posse passando onze anos ali. Seu aluno mais notável foi Johannes Cocceius, autor que mais tarde deu forma a Teologia da Aliança.
Mesmo tendo muitas dificuldades na vida pessoal, sua voz foi uma das mais influentes no desenvolvimento do movimento puritano e das igrejas protestantes na Holanda e na Inglaterra. A discussão contra o Arminianismo estava no centro de seu trabalho e ele foi o principal conselheiro do presidente do Sínodo de Dort (1618-19) na luta contra os arminianos.
No final de 1620, decidiu que deveria deixar a universidade e ir para a América do Norte, pois teria recebido correspondência de seus amigos congregacionais ali, convidando-o para se juntar a eles e trabalhar como pastor ou professor.
Mas Ames nunca pôde embarcar para América. Ao invés disso, acabou ficando em Roterdã para, em 1632, atender um chamado para se o co-pastor de seu amigo Hugh Peters,[4] numa igreja congregacional de língua inglesa. Planejavam abrir uma escola, tendo Ames como seu líder.
O projeto era de…
…uma congregação independente, centrada na aliança e determinada a ter um rol de membros composto de crentes que confessavam e verdadeiramente praticavam a sua fé. Fazia muito tempo que, dentro e fora de círculos puritanos, Ames vinha defendendo esses princípios congregacionalistas.[5]
Porém, em 1633 o rio Maas inundou as casas dos membros da igreja, inclusive a de Ames. Ele foi exposto à água e ar gelados contraindo uma febre tão alta que seu coração enfraquecido não pôde suportar. A medicina e os médicos de nada serviram.
Ames teve uma influência tão profunda sobre a teologia dos congregacionais americanos que foi mais citado por eles que Lutero e Calvino juntos. Increase Mather chegou a dizer que ele deu um Congregacionalismo perfeito.[6] Este livro, A essência da teologia sagrada (The marrow of sacred divinity) foi considerado o melhor resumo já escrito sobre a teologia calvinista. Era leitura obrigatória em Yale Harvard,[7] aliás, foram seus livros, levados por sua segunda esposa, que formaram o núcleo da biblioteca da recém-formada universidade de Harvard. “Thomas Hooker (1586-1647) e Increase Mather (1639-1723) recomendaram The marrow of sacred divinity, dizendo que, com exceção da Bíblia, era o livro mais importante para quem desejasse se tornar teólogo com boa base”. E Thomas Goodwin chegou a dizer que depois da Bíblia The marrow era o melhor livro do mundo.[8]
Seu sistema eclesiológico lançou as bases para o Congregacionalismo não separatista na Nova Inglaterra.[9]
Autor: JOELSON GOMES
Notas
[1] Para detalhes veja: BEEKE, Joel R. e PRICE, Randall J. Paixão pela pureza: conheça os puritanos (São Paulo: PES, 2010), 99-113. BEEEKE, Joel R. e JONES, Mark. Teologia puritana: doutrina para a vida (São Paulo: Vida Nova, 2016), cap. 3. Também: <http://www.apuritansmind.com/puritan-favorites/william-ames/> Acesso em: 23/09/2016.
[2] BEEEKE, Joel R. e JONES, Mark. Teologia puritana: doutrina para a vida, 96.
[3] BEEKE, Joel R. e PRICE, Randall J. Paixão pela pureza: conheça os puritanos, 102.
[4] Hugh Peters (1598-1660), Londres, ministro congregacional inglês, pregador do exército e propagandista durante a Guerra Civil e o protetorado de Oliver Cromwell. Com a restauração da monarquia inglesa, em 1660, foi considerado culpado de cumplicidade na execução de Charles I e foi executado.
[5] BEEKE, Joel R. & JONES, Mark. Teologia Puritana (São Paulo: Vida Nova, 2016), p. 83.
[6] Ibid. Idem, nota 12.
[7] Faculdades fundadas pelos congregacionais como escolas para formar seus ministros; Harvard fundada em 1636 e Yale em 1701.
[8] BEEKE, Joel R. & JONES, Mark. Teologia Puritana, p. 97.
[9] Para saber mais sobre os separatistas congregacionalistas veja: GOMES, Joelson. Os congregacionais: uma história da tradição congregacional (João Pessoa (PB): Moura Ramos Gráfica e Editora, 2017), caps. 3 e 4.

